A decisão do governo Donald Trump de classificar as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, anunciada nesta quinta-feira, 28, pelo secretário de Estado, Marco Rubio, será amplamente explorada pela oposição para desgastar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha eleitoral — leia a reportagem sobre o anúncio aqui.
O governo Lula sempre foi contra a iniciativa, por temer que isso abra caminho para ameaças à soberania nacional, o que poderia incluir algum tipo de invasão estrangeira no país a pretexto de combater as organizações criminosas. Também pesa contra a avaliação brasileira de que isso dificultaria medidas de cooperação internacional para enfrentar o problema em detrimento de ações unilaterais.
A atuação dos Estados Unidos para classificar organizações criminosas estrangeiras como terroristas não é de agora. Em fevereiro do ano passado, o governo americano declarou como terroristas grupos do México (cartéis de Sinaloa, Jalisco Nueva Generación e Noreste) e a organização Tren de Aragua (Venezuela). Desde a decisão, o governo americano bombardeou barcos apontados como utilizados pelos criminosos do Tren de Aragua para levar drogas aos Estados Unidos. Em Nova York, a polícia local prendeu diversos integrantes do bando venezuelano.
“Grande dia”, postou rapidamente nas redes sociais o senador e principal presidenciável da oposição, Flávio Bolsonaro (PL), minutos após a decisão do governo americano. O potencial para ele navegar nesse tema é imenso, já que ele havia revelado que a classificação como terroristas dos grupos brasileiros havia sido uma de suas reivindicações feitas ao presidente americano, Donald Trump, durante encontro entre ambos na última terça-feira, 26. Na quarta, o presidenciável do PL também se encontrou com Marco Rubio.
O ex-vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PL) também celebrou a decisão dos EUA nas redes sociais. “Saiu da ‘reunião que não aconteceria’ para a defesa de todo o cidadão brasileiro que sofre com a violência de terroristas todos os dias. O início do fim dos ‘diálogos cabulosos!’”, escreveu. Eduardo Bolsonaro (PL) também postou vídeo agradecendo a Rubio e ao vice-presidente dos EUA, J. D. Vance pela medida.
Na campanha eleitoral, o bolsonarismo deve bater na tecla — já usada à exaustão na pré-campanha — de que o governo Lula não queria a mudança porque defende as organizações criminosas e não tem interesse real em enfrentá-las.
O discurso tem potencial porque o avanço das facções criminosas, com tentáculos em praticamente todo o território nacional, ajudou a alavancar a segurança pública como uma das principais preocupações dos brasileiros.
Pesquisa Genial/Quaest de maio mostra que a violência é a maior preocupação para 31% dos brasileiros, acima de corrupção (18%), problemas sociais (15%), educação (12%), economia (12%) e saúde (6%).
Outra pesquisa, a Meio/Ideia, também de maio, mostrou que 56,1% dos brasileiros acham que o governo Lula tem um desempenho ruim ou péssimo. Apenas 17,7% consideram o trabalho do petista como ótimo ou bom. Levantamento do Datafolha também de maio mostrou que a segurança é a área onde a gestão vai pior, com 16%.
Reação tardia do governo
Em maio, a pouco mais de cinco meses para a eleição, Lula lançou o programa Brasil Contra o Crime Organizado, um conjunto de iniciativas que prevê investimentos de até 11 bilhões de reais para combater os grupos criminosos baseado em quatro tópicos: asfixia financeira, melhoria da segurança nos presídios, combate ao tráfico de armas e aumento da elucidação dos homicídios.
Antes, Lula havia conseguido aprovar também o projeto de lei antifacção, que cria regras mais rígidas para combater organizações criminosas. O principal projeto do governo, no entanto, a PEC da Segurança Pública, que dá mais poder à união para enfrentar facções, continua à espera de aprovação no Congresso.
Com Veja





