Lula fez juras ao capitalismo quando isso foi necessário para se eleger em 2002, aliou-se ao Centrão para garantir a governabilidade no segundo mandato e articulou uma frente política ampla que sacramentou sua terceira passagem pelo Palácio do Planalto. O presidente construiu a carreira movendo-se pelo pragmatismo. E neste ano não será diferente. Há vários nós políticos que exigirão que o petista mostre sua conhecida capacidade de tirar o máximo de vantagem eleitoral com o mínimo dano possível. Na Paraíba, por exemplo, há três aliados do governo disputando duas vagas para o Senado. Uma delas, segundo as pesquisas, já está praticamente assegurada para o ex-governador João Azevêdo (PSB), que deixou o Palácio dos Despachos no início do mês. O imbróglio está na segunda cadeira, disputada, entre outros, pelo senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB) e pelo ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley (Republicanos). Nas eleições de 2022, Lula teve 66% dos votos dos paraibanos. O apoio formal do presidente da República a um ou a outro, por causa disso, pode definir o vencedor. Manter a equidistância seria a alternativa naturalmente escolhida pelo petista, já que ele só teria a ganhar, mas pode não ser a melhor opção.

Sem o apoio formal de Lula, Veneziano e Nabor dividirão votos, o que pode favorecer um quarto candidato que, correndo fora da raia governista, aparece como azarão: Marcelo Queiroga, ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro. Diante dessa hipótese, tanto o senador como o ex-prefeito cobram nos bastidores uma definição do presidente. Lula já fez elogios, já posou para fotografias e já acenou a ambos. O ex-prefeito compõe a chapa estadual apoiada pelo PT e encabeçada pelo atual governador, Lucas Ribeiro (PP), filho da senadora Daniella Ribeiro e sobrinho do influente deputado Aguinaldo Ribeiro, que assumiu com a renúncia de Azevêdo, de quem era vice. “O nosso palanque é o palanque do presidente Lula”, afirmou Nabor, que é pai do deputado Hugo Motta, presidente da Câmara. Empenhado em amarrar o pai à imagem de Lula, o parlamentar aproveitou a solenidade de posse do ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, no mês passado, e levou Nabor ao Palácio do Planalto, onde posaram ao lado de Lula, em imagem prontamente divulgada pelas redes sociais e por todos os canais do governo local.
Veneziano e Lula conversaram sobre o episódio. O petista buscou desfazer qualquer impressão de preterimento ao senador. “Disse ao presidente que conheço as posições dele e não é uma foto que vai mudá-las”, afirma o parlamentar, ressaltando que o problema é outro. O apoio de Lula seria fundamental, mas o que mais preocupa o senador é o volume de recursos do Orçamento federal colocado à disposição de aliados de Hugo Motta. Segundo ele, ao menos 90 milhões de reais teriam sido direcionados pelo deputado a prefeituras do estado, que, em troca, vão pedir votos para o pai. Nabor já declarou contar com o apoio de 150 dos 223 prefeitos da Paraíba. “A pressão que é feita aqui não é brincadeira”, reclama o emedebista, que também exibe uma foto com o presidente da República, captada ao lado do irmão, Vital do Rêgo, atual presidente do Tribunal de Contas da União (TCU).

Se declarar apoio a Nabor, Lula já foi avisado que “desagradará muito” Vital do Rêgo. Não é confortável para nenhum mandatário incensar a antipatia do presidente do TCU. A Corte, entre outras atribuições, é responsável por fiscalizar as obras e as contas do governo. Pior ainda é ter o presidente da Câmara como adversário. É lá que projetos importantes são aprovados, ou não, e também onde nascem os processos de impeachment. Dilma Rousseff sabe bem o que isso significa. Em declarações recentes, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, reafirmou a “lealdade” de Lula a João Azevêdo e a Veneziano, mas fez uma ressalva: “Não significa que ele não tenha respeito e não tenha uma posição de cordialidade política em relação a Nabor”. O presidente da Câmara certamente não gostou e Lula segue entre a cruz e a espada.
Com Veja





